Cidadão do Povo
Mauricio Dias

A fuga das roças e fazendas para os grandes centros urbanos não se trata de nenhum fenômeno regional, mas um quadro virulento que alcança quase todas as demais regiões do nordeste, entretanto as cidades polos são as que mais sofrem com esse processo de esvaziamento rural, motivando reflexos surpreendentes para as relações sociais e modificando o perfil de comportamento dos indivíduos que chegam em busca de novas perspectivas. O resultado disso está no inchaço urbano, fragmentação das famílias, exploração de mão-de-obra, crescimento da violência e perda de identidade.

Buscar novas oportunidades sempre esteve na agenda de alguns habitantes da zona rural, sempre foi um desejo dos mais criativos moradores do interior, entretanto essas migrações ocorriam baseadas nas vocações e estímulos dos pais àqueles que dificilmente adaptavam-se à vida no campo. Agora virou regra mandar os filhos para tentar a sorte nas cidades e amargar a solidão do campo. Essa situação ficou ainda mais acentuada com o projeto governamental de nucleação escolar, o que se traduz em fechar a maioria das unidades de ensino de povoados e distritos para expandir aquelas já existentes nas sedes municipais. "Os alunos são mandados para estudar nas cidades e voltam contaminados pela cultura urbana, pois torna-se inevitável não adquirir influências do perfil metropolitano, agindo no processo de escolhas, hábitos e comportamento", afirma uma psicopedagoga ouvida pela nossa reportagem. Ela acrescenta: "Há conflitos de identidade que aos poucos vão diminuindo, porque logo se verifica a 'necessidade' de o sujeito não querer ser diferente do outro; funciona como uma ação predatória, ou seja, uma cultura se sobrepondo à outra", relata.   

Parte desse contingente considerável de novos habitantes vem dos desiludidos do campo, dos influenciados pelas novas relações escolares, empobrecimento e falta de apoio para agricultura,   adaptando-se a pequenas atividades alternativas e/ou resistentes a retornarem às suas matrizes residenciais, que já não lhes oferecem o mesmo gosto e prazer proporcionados pelas vitrines das lojas e colorido das luzes urbanas. Mas, afinal, quem são e por onde andam esses jovens? Basta verificar a quantidade de motocicletas vendidas através de financiamentos infindáveis e veremos eles nas ruas carregando gente e quinquilharias na qualidade de motoboys, trabalhando em algumas empresas que terceirizam serviços, ocupando empregos temporários, lavando veículos pelas calçadas, transformados em vendedores ambulantes de CD's e vivendo em pequenas construções adaptadas e moradias inacabadas, muitas vezes recorrendo a empréstimos patrocinados pelos pais e avós aposentados.  

O conjunto dessa desatenção dos poderes públicos vem custando caro à sociedade como um todo, pois as modificações introduzidas na vida de quem vive no campo e na cidade, a partir desse contexto novo, mudam substancialmente a qualidade de vida das populações. A droga, por exemplo, que antes estava restrita às cidades, ganha velocidade estratosférica nas pequenas povoações, consumindo o sossego, antes motivo de orgulho dos habitantes desses lugarejos e vilas. As relações entre pais e filhos não obedecem mais a valores de identidade inalienáveis. Na verdade a cidade está interiorizando sua cultura no campo por intermédio de políticas públicas controversas e, paradoxalmente, a ausência das mesmas. Se não houver um olhar mais atento para o problema, a velocidade desse processo 'predatório cultural', como tão bem analisou a psicopedagoga consultada, se encarregará de consolidar um caminho sem volta.

Texto: Maurício Dias - Imprensa sem censura | Foto: Ilustração

Abreu
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